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Carnaval sem cordas ou Da 2ª em que Daniela parou SP  

Posted By: w16 On:


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Publicado originalmente em Chic Pop em 26/01/2016

 

 

24 de janeiro de 2016

Domingo

” – Vamos ficar aqui mesmo que já vem chegando o Trio da Daniela”.

Estávamos na esquina da Rebouças com Faria Lima. O trio vem sentido Largo da Batata. Dodo e Osmar ficariam orgulhosos. Aí vem a Rainha Má Daniela Mercury. Decotão. Vestido preto. Toda linda, dançando, acompanhada pelas bailarinas em movimentos de dança afro. O trio chegando e já dá pra sentir a batida do axé reverberando no peito, no baixo ventre, na carne purpurinada de carnaval. Guitarra baiana. Bora seguir o trio. Aperto na curva. Uma leve chuva. A brincadeira só está começando.

23 de janeiro de 2016

Sábado

Estação de trem de Osasco

– Consegui um ingresso pro show da Ivete hoje a noite. Vai ser em Santana, perto do metro. Só arranjei um. Se quiser, vai ter que ir sozinho. Tem que buscar na Vila Mariana.

– Será?? Acho que não. Ai, caralho…

Osasco —> Barra Funda —> República —> Praça Dom José Gaspar.

Ainda era sol, quando cheguei no palco montado pela Red Bull na Dom José Gaspar. Por ali, aconteceria os shows dos blocos de carnaval de rua de São Paulo. Um bom negócio pra todos. Os blocos levantam uma grana pra bancar seus cortejos, Red Bull associa sua marca ao jovem e promissor carnaval de rua de São Paulo, o apoio e o logo da prefeitura nos banners. Os blocos em formação de banda. Boas performances, repertórios variados, marchinhas autorais e tradicionais, o público brincando. Como disse, um bom negócio para todos.

Assim começou o carnaval em São Paulo do ano de 2016.

Praça Dom José Gaspar —> República —> Luz —> Tietê

Passava da meia noite, quando Ivete subiu no palco do CarnaUOL, num pico grande em Santana. Projeções, 04 dançarinxs, danças com movimentos simples, percussão nervosa, dois metais, grandes hits.

Início do show, acenar à platéia. A sensação de que todxs nós somos amigxs de Ivete. O desejo de tomar uma breja com ela no arrastão da quarta de cinzas, antes ou depois da lavagem da avenida, é inevitável. A sensação de que todxs nós somos amigxs de Ivete. Assim, Ivete constrói sua persona Rainha. Ela ironiza os elementos do espetáculo que a associa a uma diva. Faz careta quando está no ventilador na boca do palco. Tira onda ao arrumar o maiô prateado baphônico com franjas que insiste em manter-se enfiadinho.

Domínio total sobre a performance e sua banda. Sobe o tom. Improvisa com os metais. Batuca no timbal. Até da pra esquecer do público. Dança. Tá gostosa pra caralho. Pernas a mostra.

Minhas pernas dóem. Após o dia brincando no carnaval dos blocos de rua, não quero mais pular. Isso aqui nem é pipoca. Ivete não para de pular. É o produto perfeito para um público parecido com aquele que segue às micaretas ou aos camarotes e cordas do Circuito Barra-Ondina ou Campo Grande.

Ironicamente, ao cruzar os brancos e higienizados Jardins de São Paulo, também pulavam com Daniela, o povo negro que vive em São Paulo. De nada lembrava o carnaval dos abadás consumidos pelos gringos e paulistas que bebem a bebida que pisca dentro das cordas do trio da própria Daniela, em Salvador.

Nas ruas de São Paulo, sem abadás ou pulseiras, o trio demolidor arrasta a multidão. Das bichas carão do centro às travestis maloqueiras da quebrada. Bate cabeça carnavalesco. Empurra-empurra. Pisa no chinelo de um. Se esfrega na purpurina do outro. O cara bêbado quase fica. Nem estamos na Brasil e Daniela grita: “É a maior pipoca do Brasil”.

Um cara grande para, todo mundo se aperta, confusão e lá se vão alguns celulares. Thug life, rapá. Acena aos foliões das janelas dos prédios. Carnaval é relacional. A velhinha do térreo, uma namoradeira, parou pra ver a banda passar. A subida da Rebouças. As pernas exaustas. Impossível parar de pular. Perco geral. Cortejo sozinho. Reencontro. Abraço apertado. Uma multidão na passarela das Clínicas. Daniela nos conduzindo pelas ruas da cidade que aprendemos a chamar de realidade. Nem estamos na Paulista e Daniela grita: “É a maior piroca do universo”. Sorry. Corretor viciado.

Numa das grandes encruzilhadas da cidade, a macumba da Rainha Má. Metro Paulista. Última chance de vazar. Nem fudendo. O beijo roubado foi-se em direção à Consolação. Parece Parada Gay. Uns caras brincam em cima do telhado do ponto de ônibus sentido bairro-centro. O acrílico. O crime. A ordem. O blablabla institucional. Dessa vez, a PM não soltou gás lacrimogênio nem rolou bala de borracha. Glória Deus. O cortejo segue. Vou morrer se ela não cantar Chame Gente. Sobrevivi. Daniela não para de cantar. A pipoca não para de pular. Nem estamos na Consolação e Daniela grita: “É a maior pipoca da história da humanidade”.

A pipoca infinita seguiu pulando até a Praça Roosevelt. Sem cordas e abadás, a pipoca é só pipoca.

As cordas destroem a grandiosidade e beleza do Carnaval de Salvador. As cordas excluem o povo baiano do seu próprio carnaval. As cordas tornam o carnaval violento, branco, estrangeiro e desinteressante.

Na cidade de São Paulo, após negociação com os blocos de rua, um decreto de 2014 proíbe o uso de cordas, grades ou cordões que privatizem o espaço público e excluam o folião paulista do seu carnaval. Até onde sei, um decreto pode ser facilmente derrubado por uma nova gestão. Um bom negócio para poucos.

Dodo e Osmar ficariam orgulhosos de seus novos filhos. Nós, foliãs paulistas do carnaval de rua, fizemos, conduzidas por Daniela, o Carnaval baiano acontecer plenamente por aqui.

 

Teorias práticas aprendidas na rua: O carnaval pode atingir o intelecto quando ouvimos as canções dos blocos que prezam por uma boa qualidade musical e performance; tem o carnaval que atinge diretamente o baixo ventre, sagrado ou profano, como na Bahia; existe o carnaval tradição, privilégio para poucos blocos de rua e experiência vivida pelas escolas de samba; algumas performances carnavalescas nos pega na memória como experimentação catártica de uma marcha rancho.

Em mim, o Carnaval acontece plenamente quando todos esses elementos se misturam, geralmente dá um aperto no coração, uma coisa estranha, meio inexplicável: ou se explode de alegria ou se chora, como uma criança, na avenida.

Eu que já chorei na Avenida Sete, dessa vez, era um menino, chorando, na entrada da Avenida Paulista, ali mesmo, onde nasci e renasci.

Eu queria que essa fantasia fosse eterna, Daniela…

Você cantando Baianidade Nagô me transportou para Praça Castro Alves. Juntxs, nós todxs fizemos São Paulo se fantasiar de Salvador.

Após 24 anos, Daniela marca novamente a história de São Paulo. Era 1992, quando possivelmente desconhecida, Daniela arrastou milhares de pessoas para um show no vão livre do MASP e teve de interromper a performance porque a estrutura do museu estava sendo abalada pela alegria da multidão. O axé não tinha completado dez anos. Sampa ainda não tinha experimentado a retomada do carnaval. Ivete nem havia chegado na Banda Eva.

Por falar em Banda Eva, Ivete apresentou em seu show, o novo vocalista da banda. Importante dizer que a Banda Eva foi fundada como um bloco de carnaval de rua de Salvador nos anos 80, e nos 90, no auge do axé, tornou-se um grande negócio. Ivete deixa o grupo em 99 alegando que não tinha controle sobre arranjos e decisões. Era apenas uma voz. Por falar em voz, uma criança do The Voice Kids cantou no show da Ivete. Um homem na platéia chorou. Ivete comentou. Quase fiquei tocado. Quanto ao novo vocalista da Banda Eva: um carinha gatinho, fortinho, tatuado, deixou aparecer a barriga tanquinho quando levantou o braço e tem o timbre dos cantores de sertanejo universitário. O espetáculo deve recebê-lo bem.

Logo depois da performance da Rainha Ivete e seu fã novo cantor, antes do fim, resolvo vazar do show. Merda. O metro – que Ivete achou que fosse uma nave espacial – já estava fechado. O relógio de rua marca 02:02. Pego um busão pro Parque Dom Pedro. 3,80 é roubo, mesmo com ônibus noturno. Um cara me pergunta se eu estava no ensaio técnico das escolas de samba, no Anhembi. As purpurinas da tarde parecem que ainda estavam grudadas em minha carne. Ele mora no Campo Limpo, na Zona Sul, e desfila pela Peruche, escola do Limão, na ZN. Pergunta se eu tinha paquerado muito hoje. Falei que na Ivete, não. Mas no show dos bloquinhos, a tarde, eu tinha arrasado. Troca de ônibus e a conversa segue sobre os mestres-salas viados e as travestis das escolas de samba. Viemos juntos até a Avenida Rebouças que 12 horas depois seria tomada pela pipoca infinita de Daniela. Ele fica na Eusébio Matoso e me manda um beijo do ponto de ônibus. Algo nesse encontro me lembrou o carnaval do Rio.

 

25 de janeiro de 2016

Segunda

Aniversário de São Paulo

Acordo no 24a andar de um prédio no Bixiga. Pela janela, o mar de arranha céu. 07 anos vivendo por aqui e São Paulo ainda pode assustar. Estranhamente linda, minha cidade.

Parabéns São Paulo. Ando bem feliz em viver por aqui. Seu carnaval está lindo.

Preciso voltar pra casa. Tenho ensaio do Baile da Shanawaara às 11h00.

Hoje ainda tem show do Gil, no Parque do Tietê. ” – Concentra, capricórnio. Você precisa trabalhar”.

Sentado na escrivaninha, vejo que depois de um início de verão com frio e chuva, o sol arde lá fora. Preciso ler o livro do Zizek, sentar minha bunda na cadeira e escrever um artigo. Tarefa relativamente simples. Desconcentro. No facebook, a foto da Cláudia Raia sorrindo e acenando à platéia dentro de uma limousine no Anhembi. Que deprê. Não reconheço esse Carnaval. Hoje ensaiamos o samba enredo da Gaviões de 95 pro Baile da Shana no SESC Itaquera. Vai ser um estouro. Socorro. O carnaval já começou. Ainda tomado pela explosão carnavalesca de Daniela, os pensamentos e a escrita vão tomando outros rumos. To fudido. Esse artigo não vai sair nunca. Foda-se. Vamos ver se pelo menos consigo virar uma boa crônica.

EPÍLOGO

O segurança negro na entrada da pista premium. Ele olha o pulso branco daqueles que voltam do bar ou do banheiro. Não deixa passar nenhum. Se não encontra a pulseira rosa no braço direito, pede pra levantar o braço esquerdo sem punhos cerrados. Quem paga mais fica mais perto do palco. Dali é possível ver bem as pernas torneadas da cantora. A lógica do grande negócio, do capital. A lógica desse carnaval. O segurança negro barra o bombadinho que tenta entrar sem a pulseira rosa. Enquanto eles discutem, verifica o pulso branco de todxs xs outrxs que tentam entrar. As pulseiras rosas fantasiadas de abadás. Em algum momento ele vai ter que baixar a guarda. Sua função executada com perfeição. Implacável. Não tiro os olhos dele. Ele não tira os olhos dos pulsos brancos e das pulseiras rosas. Estamos sozinhos. O loirinho bonitinho tenta entrar com a pulseira amarela. Confusão. Momento certo. Não. Todas as outras pulseiras verificadas. O segurança negro de São Paulo me lembra os negros que seguram as cordas de Salvador: o velho bêbado, a mulher grávida, a piriguete exaltada. Troca de seguranças. ” – Vai dar uma circulada lá atrás. Deixa que eu fico aqui”. O novo segurança dá um recado pro outro mais à frente. Momento certo. Não posso falhar. Entro junto com um casal micareteiro. Grades passadas. Me perco dentro da multidão. Tem boi na linha. Pista premium. Estou na boca do palco ao lado de uma galera com duas garrafas de José Cuervo. Uma mina parece que vai gorfar. O espetáculo deve continuar. Vou tocar o terror no show da Ivete.

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Fabito é ator, compositor, antropólogo, folião, carnavalista, diretor de doc lgbt cult, padre de casamento alternativo, mediador de debate sério, campeão paulista de tai chi chuan e coordenador do projeto Shanawaara.


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