0%

Diário: Nasce uma Diva olímpica – Prólogo Canecão

Posted By: w16 On:


P_20160820_155456

Rio, 20 de agosto de 2016.

Que fase, hein, cariocas.

Ter que rachar com a cidade que vocês tanto amam.

De onde estou, vejo o cristo, ipanema, leblon, o vidigal, morro dois irmãos. Parece uma pintura… Minha amante, Rio de Janeiro. Mesmo com as cariocas boladonas contigo, você continua linda. Nossa história é longa, mas vamos aos fatos recentes:

Voltei da turnê na Europa. Acostumem-se. Sou uma diva internacioanal (sic).

Sampa tá chata pra caralho. Frio da porra, to meio deprê, meu príncipe encantado lokão ficou em Portugal, começam as olimpíadas.

Sou de Osasco. Vi Osasco ser campeão da Superliga 2012 no Maracanãzinho metendo 3 X 0 no Rio de Janeiro, nosso arque inimigo. #chupabernardinho. Invento de comentar jogos da seleção de vôlei feminino.

https://www.facebook.com/100008310886281/videos/vb.100008310886281/1785585691728443/?type=2&theater

OK. Sampa tá chata. Vou pro Rio.

Fico na casa de uma amiga em Água Santa na Grande Méier, uma definição feita por ela. Mó role. Só o 249 chega por lá. Pelas ruas da zona norte, nem sinal de Olimpíadas.

Sábado, vou assistir ao espetáculo de dança da Lia Rodrigues na Maré. Tinha visto em Frankfurt e agora revejo em casa. Mais foda assistir num galpão sem aparato de iluminação no meio da favela. Público e dançarinxs é tudo mesma coisa. Breja com as migue da cia e resolvo ficar pro baile da Teixera.

Sento pra assistir futebol masculino num bar. Brasil X Colômbia com direito a papo de macho: as meninas tão jogando bem, mas a Marta errou o pênalti contra Austrália, né… Falo do baile funk e um parceiro carioca avisa que não vai tê. Mataram um milico na Maré no início dos jogos e o exército tá atirando em quem encontra. A noite é de luto e a luta é longa. Longe da Zona Sul tem guerra e resistência.

Domingo é dia de Brasil X Rússia no vôlei feminino. Há horas sem ingresso em frente ao Maracanãzinho a espera de um milagre. Uma mina chega e começa distribuir convites para convidadxs. Espero ao lado, peço um, ela me entrega. Caraca mermão. Tribuna de honra. Me dei benzão. Pra rimar, acho que vou comer um podrão.

Quando entro na tribuna, um dos convidados que estava lá fora, um negão gigante, me enquadra, pergunta como arranjei o ingresso, fala que eu roubei, chama um milico, peço desculpas, falo que sou de osasco, tenho um blog, ele me fotografa, escondo a cara, ele me empurra, quer que eu seja expulso do ginásio, o milico tá de boa, eu falo que não roubei, mas que o negão tá certo, eu errei, é que eu queria muito assistir ao jogo, num deveria ter pedido o ingresso, tribuna de honra toda olhando a confusão. Que vexame… to queimado com umas três gerações de vôlei. O milico me libera, o negão ainda vem atrás de mim, saio correndo e assisto ao jogo na penúltima fileira do Maracanãzinho, meio escondido, atrás de uma pilastra. Lá em cima, o clima tava ótimo.

P_20160806_173111

Dia seguinte, rolê na zona sul. Trânsito do caralho pra cruzar o Maracanã. Vendaval em Ipanema, geral fugindo como se chegasse um tufão. Bora pro centro. Que Avenida é essa? É a Rio Branco. Xavasca. Trem de superfície e tudo. Esse VLT parece gringa. E como o Cacique vai passar no carnaval?

Exposição no CCBB, churros a preço de olimpíadas na Candelária. Que linde essa geringonça atrás da tocha rodando com o vento. Andando pelo Bulevar Olímpico: – o que era aqui mesmo?? Perimetral??  O Museu do Amanhã. Pela espada dura do meu São Jorge queer. O Rio de Janeiro tem o passeio mais moderno do Brasil. São Paulo não vai suportar. #chupaberrini

Repórter da NBC cobrindo samba na Pedra do sal, minha amiga levanta o cartaz Fora Temer. Todes gritam. Chuva engrossa. Fomos guerreiras mas é hora de partir. 249 na Presidente Vargas rumo a zona norte.

Dia olímpico na TV. Que dia ruim para ao feminino… Handebol cai nas quartas, futebol e vôlei de praia na semi. Só falta Brasil perder pra China no vôlei de quadra. Impossível. Pois ninguém parou a Zuh e chega ao fim o sonho do tri. Sheilla e Fabiana anunciam a aposentadoria. É a despedida da geração mais vitoriosa da seleção. Dias depois, descobrimos que perdemos o tri pras tricampeãs. Mó tristeza lá em Água Santa. Eu e Vivi nos despedimos com lágrimas nos olhos. Não pela despedida, mas pelo jogo.

Cancelo a carona pra Sampa pra passar uma noite na casa de um amigo no Vidigal. Resultado: mais cinco dias no Rio.

Pela zona sul, os quiosques dos países olímpicos parecem salão do automóvel. Escrevo um texto na prainha. Merda. Tá parecendo plágio da peça da Grace Passô que vi ontem. Vou ter que citar.

No Leblon, o inverno é quase glacial. Que exagero. Será que dá pra entrar na água? Caraio. Tinha esquecido que a água do Rio é fria pra porra. To de boa…

Canecão: quero ver se rola um show por aqui. Por hoje, chego na hora do Projeto Renascimento. Apresentação foda. Eee lemcasa. Que menino gatinho… 

Almoço na Lapa, mó fila pra carregar o bilhete único na Carioca, discussão negra no Ocupa Minc, acertamos o show.

Leio num jornal um título confuso, mas parece que o Lula não tem nada a ver com o triplex do Guarujá. Pela chamada, da a sensação que a Justiça é corrupta por não indiciar Lula. Inacreditável o que a Imprensa Golpista vem fazendo com essa história. Temos discutir a democratização da mídia.

Show dos Paralamas bombando. Tão bonito geral cantando as músicas que a gente nem sabia que lembrava mais. Uma multidão gigante grita enfurecida Fora Temer. Fora Temer. Fora Temer. Fora Temer. Fora Temer. Fora Temer. A última vez que o gigante acordou deu tanta merda que fico até com medo.

A gente tem que derrubar esse governo golpista antes que aconteça um leilão do país pros gringo explorar. Juntxs somos mais fortes.

Fim do show, geral engarrafada pra sair. Pego uma caipirinha com uma mina mó firmeza que mora no Méier. Ficamos miguxando. Um povo torcendo num bar. É semifinal do vôlei masculino na TV: Brasil X Rússia. Paramos. Comunidade LGBT se reconhece e fica fazendo as viadagens costumeiras. Brasil ganhou e seguimos pruma festa na Praça Harmonia. To com larica. Salsichão 8 conto. Acode a gente meu Santo Antônio gordo. Já dizia Dona Teresinha de Fortaleza: Tá me achando com cara de turista? Rio de Janeiro perdeu o bom senso. A gente ganha em real, parceiro.

Papo de tiozão dos anos 80 aconselhando a bee novinha no ponto de ônibus às 4 da manhã e o dia amanhece no Vidigal.

De manhã, avião da esquadrilha da fumaça passa num rasante. Será que rolou um world trade center no Cristo?? Imagina que bapho, Rio de Janeiro!! Aí sim ia ganhar status de metrópole mundial. #chupasampa No fim, nem teve ataque terrorista, né…

Dia da maratona. Vamos ao aterro do Flamengo pra gritar Fora Temer Fora Temer Fora Temer Fora Temer Fora Temer Fora Temer e deixar uns cartazes no trajeto.

P_20160820_134903

Começo a escrever esse prólogo no Arpoador. Uma mina de Los Angeles vem trocar ideia comigo. Viu uns jogos de vôlei feminino dos Estados Unidos. Falo que sou de Osasco, campeão mundial 2012 com Sheilla, Garay, Jaque, Thaisa, Adenízia, Brait, Fabíola. Ela acha Osasco foda. Digo que o Rio nunca ganhou esse título. #chupabernardinhoagain. 

Final do futebol masculino num bar no Vidigal. Pelo que a comunidade afirma juiz, alemães e brasileiros são viados, arrombados e/ou fazem viadagem, como eu. Quase me incomodo. 1 X 0, Neymar grita “eu tô aqui”. Galvão fica filosofando as globosta dele.

Pênaltis e a velha loca metida a rica canta Ó minas gerais. Fim de jogo e Neymar é só um menino chorando. Meus olhos se enchem de lágrima. Escondo. Macho não pode chorar. Um cara que há pouco chamava o goleiro de arrombado vem falar comigo. Abaixo a cabeça e percebo que ele tem os olhos marejados também. Olhos nos olhos, quero ver o que você me diz… nos reconhecemos como machos.

Domingo ou O dia de hoje.

Hora de preparar o show. Um passadão em casa com músicas e textos. Finalizo esse prólogo. Últimos ajustes no editorial da Revista Geni edição quebrada. Nem acredito que tá no ar. Abençoa Jeová. Os meninos do vôlei ganham o ouro! #ahazobernardinho.

Sigo em direção ao Canecão. Algumas ruas ainda fechadas pela maratona. Nossa Senhora de Copacabana travada. Chuva, vendaval e frio no Rio. Fudeu. Vai tá miado. Dito e feito. Público pequeno sentado lá longe, microfone solta o cabo no meio de uma música, eu sozinho naquele palco gigante colocando as próprias batidas, as palmas vão aumentando a cada música, mas nem no Charme de Shana o povo se animou pra dançar. Sacrilégio. Na Alemanha e Portugal, meu charme era um ahazo total. Rio de Janeiro, você me deu o show mais difícil do ano. Ok. Sou uma diva compreensiva. No fim, umas minas dançaram Ave Shanawaara comigo. Adoro os shows tretas. Ganha um ar mais performático. Acho que tem mais história pra contar.

FOTO OCUPA MINC RJ

Caralho. Esqueci de gritar Fora Temer Fora Temer Fora Temer Fora Temer Fora Temer. Volto e faço um discurso contra Marta Suplicy, senadora que recebeu o meu voto, foi pro PMDB e agora vota pelo impedimento da presidenta. Escrota. Ela deveria me representar.

Fim do show e um cara fala que meu trampo parece Hermes e Renato. Fico honrado. Ainda rindo, diz que curtiu muito. Que o show é marcado pelo bom humor com música muito boa. Elogia as batidas. Passo os créditos pro Cainã Vidor, meu produtor musical. Ele me mostra a frase escrita na entrada do Canecão: “Aqui se escreve a história da música popular brasileira”. Caralho. Que foda!! Foda.

Esqueci de dizer:

Sempre ouvia na Xuxa que alguém ia lançar CD no Canecão. Então resolvi que esse show seria lançamento nacional do cd Shanawaara. O lançamento mesmo foi no Kampnagel, em Hamburgo. Acostumem-se. Sou uma diva internacioanal (sic).

Rolezinho na festa black. Num é que bombou, mesmo com a chuva. Danço com as queer preta, cruzo o palco algumas vezes só para aparecer. Não peguei ninguém. Comprei um pavê e saio correndo na chuva. Bateria acabou, tô sem dinheiro pro táxi. Caralho. Só me resta o busão. Pelo menos não é o 249. Peço informação pruma mina. Ela me oferece carona de uber até a Niemeyer. 

Carrão chega e o motorista era gago. Com o vendaval, a areia tomou a Avenida Atlântica. Papo vai, papo vem e ele disse que tava na última corrida. Desde às 07h00 dirigindo pra folgar segunda e terça, dias em que ele aluga o carro pra outro. No painel, o relógio marca 01:26. Mas ele trabalha tanto assim apenas aos domingos. Nos outros dias é mais tranquilo. 12 horas. O loko, véio… O Temer iria adorar essa história. Pergunto se ele faturou muito nas olimpíadas, ele dá uma engasgada e diz: o dooooobro. Que pena que ele não é meu amigo. Queria muito poder zoar. Segurei o riso. Sou um bom paulista.

Pelo Vidigal, não chovia.

Vejo umas imagens do encerramento dos jogos na internet e pelo Maracanã, o vendaval fez voar a fantasia dxs piventinhx que cantavam o hino nacional. Parece que o Brasil ficou em 13o lugar na classificação geral. E num é que deu PT?   

Hora de me despedir…

P_20160817_164650

Rio de Janeiro, minha grande paixão. Sei que o processo dessa olimpíada foi muito escroto. Por aí, PT e PMDB, quando nem se imaginava o golpe, se juntaram nas militarizações e remoções. Mas vejo um movimento forte acontecendo por aqui. Em Sampa, logo mais, entramos no ciclo das manifestações. Volto renovado pra botar pra fuder. Não temos mais nada a perder. Seguimos articuladas, nos encontrando, errando e sonhando. Somos sujeitas históricas e a luta é longa.

Se Haddad ou Erundina não levarem por aqui (acode santa inês brasil) e rolar Jandira ou Freixo por aí, invento um exílio carioca. Pode esperar.


Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Play Cover Track Title
Track Authors