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Revista Geni: Era uma vez uma mocinha fake

Posted By: shanawaara On:


era uma vez...

Publicado originalmente em Revista Geni em 28.10.2015

Era uma vez uma mocinha fake

“Parece que o nome da sua conta no Facebook pode não ser o seu nome verdadeiro.” 

 

Tesões de minha vida!

 

Um belo dia, despertei em meu leito solitário de diva, ordenei por um combinado de frutas marroquinas, vitaminas japonesas e alucinógenos holandeses, e ao logar meu perfil no Facebook, vi o anúncio:

 

“Parece que o nome da sua conta no Facebook pode não ser o seu nome verdadeiro. Pedimos que todos usem seus nomes verdadeiros no Facebook para que as pessoas saibam com quem estão interagindo.”

 

Na página seguinte, uma lista de documentos que são aceitos pela empresa para comprovar que meu nome real é Shanawaara.

 

Nos últimos meses, fui acompanhando os perfis das miguxas e falsianes caírem pouco a pouco no Facebook. Performers e drags de todo o Brasil perderam o seu nome artístico e de repente eu começava ver postagens com nomes masculinos que eu nunca tinha ouvido falar até então. Imagina Shanawaara transformando-se em Fabito Figueiredo, que humilhação!?

 

Comecei a pesquisar sobre o tema e essa política de “nomes reais” que atingiu as miguxa tudo e descubro que isso vem acontecendo desde 2014 no Brasil e em outros países. Após uma primeira leva de bloqueios de perfis em São Francisco (EUA), as drags de lá iniciaram uma mobilização, de modo que administradores do Facebook receberam um grupo de fervidas babadeiras para uma reunião, em setembro do ano passado.

 

Na época, a empresa liberou por algumas semanas os perfis bloqueados para que fossem transformados em fanpages (aquelas páginas de empresas e personalidades que você tem que curtir) e divulgassem a seus amigos, contratantes e fãs essa migração. Entretanto, o desejo das drags em manter o perfil como era não foi atendido.

 

Assim nasce uma diva virtual

Artistas e antropólogos divergem sobre o meu mito de origem, mas tudo leva a crer que fui encontrada seminua em uma nuvem de purpurina durante um dilúvio ocorrido numa várzea oeste da cidade de São Paulo após o fim do Carnaval. Dias após o meu nascimento, criei uma fanpage no Facebook, que sou ligeira.

 

Entre compartilhamento de clipes, frases de impacto, marcações em fotos, fui construindo a minha existência nesse estranho mundo.

 

Seis meses após a criação da página, minha assessora de imprensa deu a ideia de fazermos um perfil para mim. Curti.

 

Escolhi um nome e sobrenome — Shanawaara Corleone —, logo trocado por uma identificação mais mexicana: Shanawaara Rodrigues. Após alguns meses, descobri que dava pra fazer um cambalacho, colocar uma configuração da Indonésia e fazer um perfil sem sobrenome no facebook. Assumia assim a identidade Shanawaara, a única.

 

Com o perfil no Facebook, a minha existência artística personificada no palco, clipes e fotos, ganhava uma outra camada, com ares de “experiência real”, baseada em minha performance virtual.

 

Agora, eu curtia a foto das miguxa, xavecava meus fãs, negociava show inbox, cutucava quem eu queria que me descobrisse, confirmava presença em eventos, escrevia parabéns na timeline das aniversariantes, fazia parte de grupos de performance, teoria queer, jazz e de manda nude. Uma vez, alguém me colocou no grupo “pobre gosta de promoção”. Fiquei indignada, vi se algo me interessava, comprei um vestido baphônico e saí do grupo, pois sou diva!

 

No meu feed de notícias, passei a acompanhar as postagens das miguxas performers, intelectuais e drags de várias partes do Brasil, Argentina e Portugal vendo o que cada uma está produzindo e como estão levantando a discussão sobre gênero, performance e estudos queer, refletindo tais aprendizados diretamente na minha construção como artista, ativista e diva.

 

O meu perfil do Facebook me tornou uma pessoa tão real quanto o amigo que você não vê há anos, mas vai acompanhando por meio de posts de selfies do casamento, da gravidez, do filho recém-nascido, do aniversário de um ano com o bolo da Peppa Pig, da viagem pro Beto Carreiro porque o dólar tá quatro reais, da ausência de selfies, da mudança de status “casado” para “solteiro”.

 

Mobilização na gringa

 

A comunidade drag, transgêneros e performers de São Francisco seguem ainda mobilizada para tentar reativar seus perfis no Facebook.

 

Afirmam que os nomes que escolheram para performar, experimentar e existir são seus nomes reais. No universo das drags e performers é comum o nome artístico se transformar em uma espécie de “nome social” (coloco entre aspas, pois nome social é relacionado axs transsexuais e travestis, sendo ele acompanhado por outros debates e lutas). Esses nomes artísticos seguem como identificação das drags mesmo ao fim dos espetáculos, da retirada das máscaras e do uso do demaquilante, e está em relação direta com a construção da identidade, personalidade e existência de performers e suas personagens, separadas, muitas vezes, por uma linha tênue.

 

As drags de São Francisco se uniram, iniciaram a campanha “My name is…” e trouxeram para a luta as transexuais sem o nome social regulamentado, imigrantes ilegais dos Estados Unidos, vítimas de violência doméstica e perseguidos políticos.

 

Essa política do Facebook atinge diretamente esses sujeitos de maneira ainda mais grave. No caso dxs transexuais e travestis a escolha de um nome está relacionada à construção de sua identidade de gênero; no caso dxs outrxs sujeitos, revelar o nome real é estar exposto à violência e risco de vida.

 

“My name is…” vem organizando protestos, como o ocorrido durante a Parada LGBTQ de São Francisco em 2015, além de registrar casos no mundo todo dos bloqueios dos perfis.

 

As contas bloqueadas vêm sendo liberadas apenas quando os documentos de identificação são enviados ao Facebook, sendo apresentados a todxs perfis com os nomes legais, expondo muitos indivíduos a seus agressores ou divulgando uma identidade que não faz sentido para a existência dx usuárix.

 

Ainda em 2014, em meio à confusão inicial, o Facebook emitiu uma nota pedindo desculpas à comunidade drag, mas afirmando que essa é uma política de segurança necessária, pois grande parte dos perfis com nomes não reais são utilizados para más ações. Incentivou, então, a transformação dos perfis bloqueados em fanpages.

 

Chegamos num ponto interessante. Vem com a sister Shana que você vai entender o que pode ser real nessa história:

 

O Facebook só libera as postagens das fan pages para a maioria dos seus seguidores quando o seu administrador compra uma cota de patrocínio. Notaram que páginas com 41.441 mil seguidores tem postagens com menos de 100 curtidas e que você com 2 mil miguxas atinge essa marca facilmente quando posta a foto do seu biquini novo estreado no Boqueirão?

 

Apesar da crise, estamos falando aqui sobre uma das maiores empresas capitalistas do mundo, que aumenta seus lucros e poder anualmente e sabe muito bem como se apropriar e girar um grande fluxo de capital, a partir de sorrisos forçados capturados por paus de selfie.

 

O Facebook almeja a transferência do suado aqué conquistado com muito trabalho, purpurina e lip sync diretamente para a conta de uma das beeshas mais odiadas, invejadas e ricas do mundo. Mark Zuckerberg possui hoje um patrimônio estimado em 33 bilhões de dólares (converte isso pra real, gata) e o Facebook vale mais de 200 bilhões de verdinhas estadunidense. Minha tia disse que dinheiro não traz felicidade. Ela não imagina o show que eu produziria com essa grana toda!! #tonacolabeyonce

 

 

E agora, Josefa?, ou Bitch better have my money

 

Em 28 de outubro, dia em que esta edição foi pro ar, o Facebook desbloqueou meu perfil.

 

Envie as comprovações necessárias exigidas para comprovar o meu nome real.

 

Além da galera que curte meu trampo, estavam bloqueados em meu perfil produtores culturais, contratantes de show, imprensa.

 

Fanpage pra mim nunca foi uma boa alternativa, pois não vou patrocinar cada uma das minhas postagens para conseguir rodar as publicações. Prefiro criar um site ou mesmo um portal.

 

Não posso negar que o Facebook é a empresa capitalista com maior responsabilidade quanto a construção da minha identidade e performance. Inclusive, com essa confusão toda, comecei a pensar em um nome e sobrenome que hoje, dois anos depois do início dos meus trabalhos, fizesse um real sentido para mim. Mais um vez, a construção de minha existência passa pela relação com o Facebook:

 

Muito prazer. Aqui quem fala é Shanawaara Hara de Figueiredo.

 

Por sinal, pode #add a mana Shana que tô na rede.

 

https://www.facebook.com/profile.php?id=100008310886281&fref=ts

 

E se você tiver algum caso a relatar sobre bloqueio de perfil ou exposição da sua identidade pelo Facebook, deixe seu comentário por aqui. Bora se comunicar e buscar uma saída coletiva pra essa situação. Vale a pena também escrever seu depoimento na campanha “My name is…”, que tem um alcance internacional.

 

Vejo vocês no mês que vem.

 

Um beeeeeeeeijoooo da Shana

 

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Ilustração: Paloma Franca Amorim

 

Era uma vez uma mocinha fake

 


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