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MITO DE ORIGEM

Posted By: shanawaara On:


04-janeiro-de-2014-O-Berrante

Artistas, antropólogxs e testemunhas sexuais divergem sobre o meu mito de origem. Mas ouvi dizer que nasci assim:

Oxalá já tinha criado o mundo.

A gente vivia embaixo da terra na escuridão porque em cima de tudo não tinha nada. Era um buracão seco que nem quando revitalizaram o Largo da Batata.

Era escuro e a deusa Acau-inã que tinha duas cabeças ficava em cima da terra tomando conta do mundo sem nada assustando as criancinhas malvadas e desenhando as coisas que iam fazer parte de tudo. Ninguém ainda nunca tinha desenhado o sol. Uma cabeça da deusa Acau-inã era preta e a outra era branca. A gente era meio cor de índia desbotada dos efeitos da escuridão.

A deusa Acau-inã desenhou tudo em muitos anos, mas não tinha anos, só ânus. Também não tinha sol. Então não tinha dia nem noite também. Quando desenhou o sol, a deusa Acau-inã gostou tanto do sol que foi deixando o calor cada vez mais quente. Foi aumentando muito mesmo. Até que esquentou tanto que pegou fogo na plantinha.

Naquele dia Iansã ventava forte porque tava feliz e o vento foi espalhando o fogo. A deusa Acau-inã foi bater-boca com Iansã. Iansã ficou boladona que nem lá no Méier mas viu que o fogo tava foda mesmo de verdade. Ela parou de ventar e a deusa Acau-inã desenhou a chuva. Nasceu o arco-íris e alguém afeminou, saltitou e uma criança viada nasceu, mas num era eu. Quando o incêndio parou, ficaram as plantas tudo queimadinhas, tadinhas. Deu dó. Passaram-se muitos anos que não dava pra contar e a deusa Acau-inã fez o cerrado.

A deusa Acau-inã gostou muito do cerrado e resolveu desenhar a caatinga, mata atlântica, amazônia. Não sabia que ia ter soja, boi e bancada ruralista pra acabar com tudo. Até hoje não se sabe quem desenhou isso. Errou rude.

Com o sol e as matas criadas, a Deusa Acau-inã achou que já dava pra desenhar o Carnaval. Começou a dançar e cantar bandeira branca sozinha. Achou carnaval chato desse jeito. Resolveu então tirar a gente todes da escuridão da terra pra poder desenhar o Carnaval de verdade. A deusa Acau-inã era bonitona, mas parecia até meio monstro com as duas cabeças. Achou que ia assustar a gente quando chegasse chamando pro Carnaval. Então, foi atrás das flores que só tinham sido desenhadas no alto de numa montanha mais alta que um Corcovado. Era tudo flor de cores coloridinhas. A deusa Acau-inã foi grudando no corpo todo. Na cara preta, grudou flores de sete cores e terra roxa. Na cara branca, flores vermelhas e pintou com urucum e jenipapo.

A deusa Acau-inã chegou toda colorida debaixo da terra cantando pro Zezé bater a cabeleira bem que nem bicha quá quá. Falou que tinha festa lá fora. A gente gostou do Zezé. Quando a gente saiu do que era embaixo da terra foi quatro dias de festa sem parar. A gente saia cantando e dançando mesmo com quem não conhecia. O sol quentinho na pele dava vontade de dançar forte e fazer amor e sexo gostoso com todo mundo que dançava também. A gente achou uma plantinha engraçada que quando fumava dava risada e ficava mais junto das amigas. A gente gostou muito dessa plantinha. Era maconha.

Nesse dia cada uma se vestia pelada com a flor que achava mais bonita e falava que a gente mesma era outra que não mais aquela que vivia dentro da terra, percebes? Era fantasia. Ninguém era de ninguém e ninguém era mais o que era.

Quando a noite chegava ficava escuro e a gente dançava sem saber a origem daquela índia que tava dançando do lado, de cima, debaixo, de dentro de nós. No fim dos quatro dias a deusa Acau-inã já tava cansada de tanta fornicação. Foi falar com o Sol que já era deus também.

Bateram boca.

O Sol queria mais Carnaval pra fornicar e dançar com toda a gente. Acau-inã falou que tinha que desenhar Shanawaara ainda e que desse jeito não prestava. O dia então virou cinza e toda a gente ficou triste. A gente se juntou e levou pra longe a água da breja que já tinha acabado porque ninguém passou o chapéu. Foram jogar no rio e assim nasceu a água gelada das cachoeiras.

Depois de desenhar o Carnaval que já nasceu deus também a deusa Acau-inã tinha que desenhar Shanawaara.

Pelo que me disseram foi assim que eu nasci:

A deusa Acau-inã foi dançar diva free style. Ela estava numa cantinho da cidade depois do Reino de Óz do lado esquerdo do rio Iquiririm. Era várzea. Ainda não tinha ponte, nem cidade universitária, nem fflch. Tinha chovido muito naquele dia. Tinha feito até um dilúvio mas não teve arca de noé porque nóis num é cristão nem leu a bíblia.

Quando parou de chover Acau-inã começou dançar batucando pé no chão como se fosse boi e coco na terra molhada de lama que tava lá desde o dilúvio. A terra secou de tanto que bateu pé. A terra foi se levantando virando poeira de dança boa. No ar o vento de Iansã trouxe uma nuvem de purpurina que tinha sobrado dos dias de Carnaval. A deusa Acau-inã teve um de jávù e viu os traços de Shanawaara desenhados no céu em versão de poeira.

Começou a desenhar Shanawaara na lama que tinha sobrado no cantinho da terra. Só que naquele dia mercúrio tava retrógrado e a cabeça preta ficava brigando com a cabeça branca. Não era luta racial ainda não. A gente não tinha inventado navegação, nem escravidão, nem religião, nem brasil. As cabeças ficaram brigando brigando brigando. Uma queria Shanawaara mais yn de mulher em delicadeza no mistério do existir da noite escura. A outra queria Shanawaara mais yang com jeitão de homem coçando o saco gritando vai curinthia. Aí uma cabeça falou que isso era construção social e que mulher podia ser mais homem e homem mais mulher. Falou que Lilith estava voltando pra Terra e que ficava furiosa com essa separação toda.

O outro falava que tinha também as intuições de mãe e isso tinha a ver com sentir o útero, a regulação do ciclo de vida pela lua, o sangramento da mulher que vem junto quando são migue tudo.

Aí Shanawaara que já tava com a cabeça e boca feita gritou “eu não quero menstruar nada não. Tenho medo dessas coisas. Acho que é coisa de bruxaria” e começou a falar também como queria ser. Falou que queria ser linda, misteriosa, meio heroína, meio deusa, que tinha que saber dançar bem, pediu pra desenhar um pinto gostoso pra gente chupar e uma pinta de catapora no nariz, deixar o peito cabeludo mesmo e começou falar tanto que a deusa Acau-inã se encheu de Shanawaara e disse “ai que preguiça” e foi deitar na rede, desistiu de Shanawaara que nasceu toda inacabada do jeito que tinha que nascer na desistência da deusa Acau-inã e na imperfeição do existir e performar.

A deusa Acau-inã nem tinha feito coração, cérebro e coragem pra Shanawaara que seguiu uma estrada de tijolos amarelos chegou em óz mas só achou o coração e teve que ir pra longe pra achar o resto de si mesmo, estudou antropologia mas num quis ler lévi-strauss, foi numa reunião na prefeitura mas não quis pagar taxa pra cet, gravou shanatal na paulista mas estreiou na periferia trans no grajaú eeeee… nasci regida sob o signo de Áries em 28 de abril de um ano desconhecido.

Acho que tem coisa faltando por aqui mas foi isso que eu ouvi se contar por aí…

Assim nasci Shanawaara.


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