0%

Era uma vez… meninas versus meninos

Posted By: shanawaara On:


15129608_1196650957081006_5703678039118976712_o

 

Era uma vez 09 de novembro de 2016.

Estamos na Praça Morumbizinho.

Festa do Livro e da Literatura de São Miguel Paulista, na Zona Leste de São Paulo.

Shanawaara entra em cena.

Diante da platéia formada por mais de cem crianças e adolescentes sentadxs no chão,

em cadeiras, arquibancadas. Praça pública.

15003263_1180022252086456_616550311706474497_o

Risos e dedos apontam em direção a nossa diva. Não é a primeira vez que acontece essa

cena. Talvez sim como objeto central de uma platéia inteira. Existir é uma aventura.

O início da contação, previamente ensaiado, com o riso explícito, não mais poderia ser usado.

Uma estratégia rápida deveria ser pensada para que possamos sair ilesxs dessa situação. Os

próximos 60 minutos, personagem e platéia, frente a frente. Esse início seria de grande

importância para o encaminhamento tranquilo da contação.

– Eu sou uma princesa. Muito prazer. Aqui quem fala é Shanawaara.

Risos e dedos apontam em direção a nossa diva. Gritam.

– Você não é princesa.

– Por que não?

– Você tem bigode.

– E pelo no peito – outrxs completam.

Se tivesse escolhido o micro shorts piriguete e maiô baphôniko, ainda apontariam para os pelos nas

pernas, coxas torneadas (que fique registrado), axilas. Mas, hoje, Shanawaara é princesa.

– E quem disse que princesa não pode ter bigode e pelo no peito?

As meninas recuam e concordam comigo. Nossas pequenas mulheres. A parceria LGBT e

feminista encontrada nesse micro universo. Os meninos, pequenos projetos de macho já

embrutecidos pelas forças sociais, ainda resistiriam um pouco mais para baixar a guarda.

Para começar nosso encontro, o livro As mulheres e homens, de Equipo Plantel. “As mulheres

parecem frágeis e os homens parecem mais importantes (…)”. Gritaria por todos os cantos. A

disputa histórica que opõem meninos e meninas em confronto em praça pública.

15129608_1196650957081006_5703678039118976712_o

Shanawaara não é mais uma contadora de histórias. Ali, ela torna-se uma mediadora de debate e

o público, uma assembléia ou plenária apaixonada por sua performance social e em defesa de

sua identidade de gênero.

Questão de ordem: quem manda mais? Mulheres ou homens?

As nossas pequenas mulheres gritam mais alto, porém a resposta chega por meio de outras

questões:

– Quem são a maioria dos donos de empresa?

– Homens – elas respondem meio emburradas.

– Quem tem melhores salários exercendo o mesmo trabalho?

– Homens – já querendo fugir da provocação.

– Quem são a maioria dos políticos na Câmara dos Deputados e Senado?

– Homens.

E antes que se desse chance à comemoração masculina:

– Cabe a cada uma de nós, meninas e meninos, mudar essa realidade.

No dia seguinte, no Galpão da Cultura e Cidadania, também em São Miguel, um menino solta um

comentário machista e leva a discussão a uma pauta perigosa: o impedimento de Dilma Roussef.

Shanawaara, antes de se complicar, contorna a polêmica com a citação da presidenta “Sou uma

mulher dura no meio de homens meigos”. Um debochado “Uhhhhhhhhhh” em vozes femininas é

ouvido.

15002457_1180022395419775_3495721611662182920_o

Nosso debate seguiu com o livro “A princesa e a costureira”, da autora Janaína Leslão. A fábula

narra a história de amor entre as personagens que dão nome ao livro, romance que vai contra as

tradições do reino e o desejo da família real. Ao final da narrativa, as meninas da platéia já

mostravam-se eufóricas e torcendo pelo desfecho favorável ao casal. Para a surpresa das que ali

estavam, ao final da história, um menino levantou a mão, seguido de outrxs colegas:

– Minha tia namora com uma mulher.

– Minha prima namora com uma mulher.

– Minha irmã namora com uma mulher, mas eu não conheço.

– Minha mãe também namora com uma mulher.

(Spoiler)

– Eu não entendi. Elas se casam no final? Mulher pode casar com mulher?

Na contação do Galpão:

– Ecaaaaaa. A princesa casou com a costureira. Que nojo.

E Shanawaara, compreensiva com o comentário, porque não, lesbofóbico, contesta:

– Ué? Qual o problema? Elas gostavam uma da outra, não é?

– Siiiiiiiimmmmm – o coro infanto-juvenil respondeu.

– Estão fazendo mal pra alguém?

– Nããããooooooo – idem.

– Então, por que elas não podem ficar juntas? Alguém pode me responder?

Não há respostas. Podemos, então, seguir para novas histórias.

15000709_1180594952029186_7245408102011000370_o

“Pois ninguém sabe ao certo o que acontecia nas noites do Sertão. Mas parece que o trio Maria

Bonita, Lampião e Luiz Pedro andavam sempre juntos e riam-se. Nunca queriam se desgrudar

quem nem como melhores amigos ou quando se tem um casamento feliz”. E quando nossos

pequenos projetos de macho esboçavam uma reação negativa à figura de Lampião:

– Pois, vocês se acham macho!? Lampião era o homens mais temidos do Cangaço. Vai falar

alguma coisa dele? Eu acho melhor não falar nada.

Para finalizar o encontro, a canção Jazz do CD de Shanawaara é cantada. “Era uma vez menino

que é menina e agora quer virar sereia…”. Forte aplauso e, na praça, a primeira reação ao fim da

canção:

– Canta de novo.

O riso infantil da diva. É hora de ir embora.

Após as fotos com as crianças, na apresentação do Galpão, é possível notar os olhos marejados

de uma mulher ao dizer que em sua casa, ela tem um menino que é menina. Um forte abraço

entre nosotras e o muito obrigada de ambas as partes.

Hora de passar o demaquilante e tomar o rumo de casa. O caminho é longo.

Não poderia imaginar o resultado dessa contação de histórias. Em tempos sombrios, um trabalho

de base necessário para o entendimento das transformações que estamos experimentando com

erros e acertos. Os questionamentos do nosso encontro não permitem respostas fáceis: construção e

desconstrução; confundir pra explicar. Tudo muito delicado.

 

Gradecidx às envolvidxs.

A luta é longa.

Um beeeijoo da Shana

São Paulo, 12 de dezembro de 2016.


Play Cover Track Title
Track Authors